sexta-feira, 4 de junho de 2010
– UM OLHAR SOBRE A MISCIGENAÇÃO E
A perspectiva de Gilberto Freyre1 frente a temática da sexualidade em processo de miscigenação, em um momento histórico no Brasil nos leva a refletir as relações entre os europeus e uma negra, um europeu e uma índia, constituía-se assim uma nova população.As misturas estabelecidas de um mulato com uma branca produzindo outras cores que se aproximarão do branco, ou do negro, na proporção da progressão parece declarada a miscigenação no Brasil. Dessa forma, esta classe de habitantes, cuja constituição é muito robusta, a que executava todas as artes mecânicas e todas as ocupações da sociedade que requerem atividades e que em geral as pessoas das classes superiores jamais iria desempenhá-la seja por vaidade ou talvez por outra causa.
Sendo assim, os negros são vistos nesse momento como uma raça ou sub-raça salientando ódios que separavam essas classes sociais ou subclasses, uma das outras. Na realidade, a população se divide em duas partes: pessoas livres e pessoas escravas que decerto não apresentavam afinidades.
Lamentavelmente não ocorreu no Brasil um fenômeno que evidenciasse uma homogeneidade e encontrasse condições de uma perfeita igualdade. Entretanto, estabeleceu-se relações opostas e inimigas entre negros livres, mulatos livres, brancos natos e brancos adotivos, sem contar os índios por eles considerados uma raça à parte. Assim, eram todos rivais um dos outros na proporção de suas respectivas classes. Os mulatos não aceitavam quando livres a autoridade de um branco e defendia direitos iguais, uma vez nascidos no mesmo solo.
Dessa negação que nunca foi sistemática no Brasil, dos direitos a pardos ou mulatos livres resultaram aqui agitações de sentido social, disfarçado às vezes em político. Os aspectos mais ostensivos do que alguns consideram patologia da miscigenação, dando diagnóstico caráter nitidamente biológico, quando essa tal patologia talvez tenha sido o resultado principalmente de circunstâncias sociais desfavoráveis.
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1- Cf. Freyre, Gilberto Sobrados e Mucambos:a continuação de Casa Grande e Senzala Rio de Janeiro, Record, 2000. 11ª ed.
A questão da patologia da miscigenação se apresenta entre os negros (nesse grupo sofredor) os seus traços mais grosseiros, talvez na sua expressão mais dramática. Eles sentiram o problema ou ainda estão sofrendo mesmo que seja em menor intensidade o problema social dos renegados ao lado do biológico, de meio-sangue. Em alguns casos em um grupo dos renegados se perceba a fragilidade física que talvez contribua nesse momento para criar a idéia de uma população fraca. E assim observa-se nas populações mestiças em geral, ao que parece, por motivos puramente sociais baseado nos aspectos exteriores.
A tendência de certas raças e de certos estados é explicada sem conhecimento associando de modo absoluto a grupos étnicos, outros ao clima. As influências sociais parecem favorecer o desenvolvimento da tuberculose em alguns negros, bem como doenças mentais entre os mestiços. Imagina-se que o negro norte-americano é menos predisposto a doenças da coluna, de obesidade, surdez, doenças nos olhos, das fossas nasais e da garganta, a uma série de males. Além disso, é menos suscetível à febre tifóide, à malária, à bexiga e ao câncer.
O mulato também apresenta várias dessas predisposições dos negros, mas se excede extraordinariamente ao branco nas estatísticas de tuberculose e de doenças venéreas. A tuberculose talvez tenha sido entre os negros, mulatos e mestiços a causa principal de sua fragilidade física. Essa falta de resistência a doenças de civilizados herdada de uma raça primitiva em contato com os portadores da doença vindos da Europa.
Para Freyre2, é fundamental ter em vista a questão do ambiente social incluída a situação econômica do mulato e do negro transplantado para as Américas. O caso do raquitismo, muito comum entre os negros do meio urbano norte americano comprovaram que durante o inverno, o pouco sol, o ar poluído, a alimentação deficiente, tudo agia contra o indivíduo favorecendo o possivelmente as doenças, a freqüência da deformação de corpo entre os meninos de cor. A pobreza foi o grande inimigo das crianças tanto negras como de qualquer outra cor na América, conseqüentemente as doenças. A tuberculose é uma doença que se manifesta com maior evidência no meio urbano.
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2- Cf. Freyre, Gilberto Sobrados e Mocambos: a continuação de Casa Grande e Senzala: Rio de Janeiro, Record, 2000. 11ª ed. p.p.632-662.
As doenças de cortiço devido as péssimas condições de moradia, do chão úmido, da presença da água podre. O problema é de higiene, é ecológico, da má desigualdade social. Essas populações miseráveis em luta pela sobrevivência muitas vezes acabam amontoados nas favelas sem nenhuma condição de sobrevivência, ou seja, condições sub-humanas de existência, em ambientes sem infra-estrutura. Os mucambos, os cortiços, as favelas, são habitados pelos mestiços, casebres abafados e úmidos sem ventilação, tanto no Brasil como em outras partes do mundo.(FREYRE, 2000).
Sendo a tuberculose como é, doença que se aproveita das condições precárias de vida, inclusive, do déficit nutritivo, assim, a população mulata e negra no Brasil, mal abrigada e mal alimentada fossem as primeiras vítimas dessa enfermidade. Além disso, biologicamente os negros não têm a mesma defesa imunológica que os brancos vem acumulando ao longo dos séculos.
Conforme Freyre,3 (2000), o negro e o mulato nestes quatro séculos vem acumulando vigor físico apesar de ter enfrentado as adversidades do ambiente quando trazidos da África, hoje, apresenta-se cheios de oportunidades e possibilidades como de afirmações sócio-econômicas e de capacidade intelectual.
É preciso destacar que essas afirmações e possibilidades reúnem atualmente no Brasil, talvez mais o mulato do que o negro puro. As influências de ambiente social invocadas no caso da tuberculose e de sua generalização entre as populações mestiças devem ser tomadas em conta na interpretação das doenças mentais entre pretos e mulatos. As psicoses tóxicas e infecciosas domina entre os negros e o alcoolismo determinou nessa época um número expressivo maior do que os brancos e mestiços doentes de alcoolismo. Incluem-se nesse quadro as mulheres no Rio de Janeiro, a habitual alcoolização das mulheres negras ou a pouca resistência ao álcool. O fenômeno começa a divergir da raça negra, visto que a mulher mulata já revela atenuado o fenômeno em face do tóxico social. Nessa linha descendente de alcoolismo da mulher preta, que é socialmente a mais degradada, a prostituta de beco, a fêmea do soldado de polícia ou de marinheiro bêbado para a branca, que é a mulher socialmente fina, talvez reflita a influência do fator social, de modo mais poderoso que qualquer outra. São também as mulheres de cor do Rio de Janeiro que mais adquirem as doenças venéreas com a sífilis cerebral.
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3- Freyre, Gilberto Sobrados e Mucambos: Rio de Janeiro, Record, 2000 11ª ed. p.p.632-662
Em Freyre,4 (2000), socialmente o negro sofreu e continua sofrendo as mazelas sociais dessa sociedade branca, não apenas sofreu o descaso, as humilhações e o desprezo como também adquiriu as fragilidades físicas devido as péssimas condições de vida que lhes foram impostas. E assim, o negro permanece sendo duramente satirizado a qual exprime claramente o desprezo social contra a raça negra e de mulatos pelos brancos das classes mais pobres.
É comum ouvir a seguinte expressão:
“ Negro quando não suja na entrada suja na saída”.
“Negro em pé é um toco, deitado é um porco”.
“Negro só nasceu para espoleta dos brancos”.
E também nas cantorias das feiras:
“Negro velho quando morre
tem cantiga de xexéu,
Permita Nossa Senhora
Que negro na vá ao céu”.
Percebe-se que o negro não é ridicularizado apenas pelas suas diferenças físicas ou sua condição social, mas, sobretudo pelo racismo cultural, mesmo o branco afirmando não ser racista, ele é racista interiormente devido a uma gama cultura que fortalece esse fenômeno na sociedade brasileira. Existe sim, um disfarce de aceitação das diferenças culturais. O primeiro ponto que se constitui um choque cultural está relacionado as religiões africanas. Nas mínimas coisas o negro e desprezado, a educação brasileira através do seu folclore reforça pelos usos e costumes do negro.
4- Freyre, Gilberto Sobrados e Mocambos. Rio de Janeiro, Record: 2000 11ª ed. pp.632-662
A simpatia do mulato foi um dos pré-requisitos que conquistou a sociedade brasileira, foi o mulato formado em competição com o advogado branco, com o médico, com o político que procurou vencer o competidor, agradando a sua clientela mais do que os outros. Seu riso foi não só um dos elementos como um dos instrumentos mais poderosos de ascensão profissional, política, econômica. Um momento onde o negro, o mulato marca a sua transição do estado de servil para o de mando ou domínio da situação, de igualdade como o dominador branco.
No uso brasileiro de diminutivo, o negro procurou através dessas palavras encurtar a distância pelos meios mais doces a distância social entre ele e o grupo dominante. Assim, foi ele que deu mais força e vigor e enriqueceu de tendências e significados sociais particularmente brasileiros. Esse instrumento foi utilizado para seus interesses, e romper suas dificuldades de um indivíduo em transição de uma classe para outra. E o diminutivo adoçando as palavras representou a maneira de ser ainda mais respeitoso, de falar dos assuntos usando um tom íntimo junto aos senhores outrora mais distantes e dos quais só os brancos tocavam.Essa foi uma característica marcante do mulato em processo de ascensão para branco. E vencer entre ele e o grupo dominante a distância social entre o bacharel mulato e o branco.
No que se refere a fecundação no Brasil, uma coisa é certa para Gilberto Freyre5, as regiões ou áreas de miscigenação mais intensa se apresentam as mais fecundas. No Maranhão foi considerada uma sub-região de mestiçamento intenso com predominância do negro sobre o índio entre os elementos de cor. Nesse sentido, a relação entre a cultura erótica e a ciência parecem ter sido sempre tensas e complicadas, não apenas no Brasil, aliás, neste país talvez tenha sido até mais fácil se comparado com os países de tradição puritana. O erótico permeia o cotidiano dos brasileiros, de norte a sul, das piadas aos jogos de sedução, das roupas aos comportamentos.
Atualmente, vive-se uma cultura nessa sociedade extremamente sexualizada em todos os sentidos, inclusive da violência enquanto que a imagem da sexualidade-tropical-do sul do Equador, não deixa de ser muito estimulada pelas indústrias do turismo, na exportação das mulatas sensuais, do samba, do carnaval e de tudo aquilo que é conhecido no imaginário do Brasil Tropical.
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5- Freyre, Gilberto Sobrados e Mocambos Rio de Janeiro, Record, 2000. 11 ed. pp. 632-662.
Ronaldo Vainfas6, questiona a imagem desregrada da Colônia produzida pelos observadores dos primeiros séculos da colonização, encontrando muitas regras, normas e formas de culpabilização. A fornicação tropical não faltaram as normas rígidas por mais que intoxicada tenha sido a colônia como quer Gilberto Freyre7, os valores da família, mescla da cultura popular e do discurso oficial se fizeram presentes. Entretanto, não se trata precisamente de decidir sobre a moralidade ou imoralidade historicamente constitutiva do país, mas de desconstruir as narrativas históricas produzidas e reproduzidas incessantemente, destacando a importância que o discurso da sexualidade assume na leitura que os brasileiros fazem de suas origens. Como observou Richard Parker, a noção de sexualidade no Brasil, não está apenas presente na percepção que cada indivíduo faz de sua existência, mas na auto-interpretação de toda a sociedade. E o discurso médico sobre o corpo e a sexualidade é apropriado como verdade absoluta.
Gilberto Freyre considera que a vida sexual no Brasil é positiva, responsável pela democracia racial, apesar da propagação das doenças venéreas. O povo brasileiro se origina nesta perspectiva, da miscigenação das três raças que no Brasil especialmente não tiveram maiores problemas para se fundirem, pois a atração sexual foi mais forte do que as exigências legais e racionais de união entre os diferentes. Daí uma cultura particular, marcada pela cordialidade, pela leveza, pelo instinto, pelo corporal e pela tolerância. As relações primárias em Freyre se caracterizariam pela intensa atividade sexual.
Além disso, a sexualidade adquire ainda uma dimensão muito poderosa na interpretação de Freyre, na medida em que é fator fundamental na determinação das relações que se estabeleceram na esfera pública. Esta molda por modelos emprestados do mundo privado, onde as relações primárias são, sobretudo marcadas pelo sado-masoquismo. Assim, o modelo de relação sexual sado-masoquista estabelecido entre senhor e escravas ou escravo transfere-se para a esfera pública, caracterizando as relações sociais.
A miscigenação decorre, pois de uma quantidade excepcional do português em se cruzar com outras raças. Freyre explica que isso se deve em grande parte à forma de emigração dos portugueses, que vieram sós. E assim, a falta de mulheres brancas sempre foi um problema de toda a colonização européia em territórios ultramarinos.
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6- Cf. Vainfas, Ronaldo – Trópicos dos Pecados. Moral Sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro, Campus, 1989 pp. 130-150.
7- Freyre, Gilberto Sobrados e Mocambos Rio de Janeiro, Record, 2000. 11 ed. pp. 632-662
É interessante observar que a concepção de História fundamentada no materialismo histórico e dialético, utilizada para construir sua interpretação da realidade nacional, o autor incorpora as análises e os preconceitos difundidos pela documentação em que se apóia, seja a que elaboram viajantes, colonizadores. Além disso, a própria estruturação do livro acaba por colocar a sexualidade, considerada em uma acepção mais abrangente no fundamento mesmo da constituição da vida em sociedade. A sexualidade é referida como centro de explicação da organização social e como lugar privilegiado da leitura que se produz a respeito do passado e da cultura brasileira. Nesse sentido que a questão do lugar central da sexualidade na construção da identidade nacional e na interpretação da história brasileira pode ser enunciada pela releitura historiográfica.
A sexualidade ocupa na construção das interpretações sobre a realidade brasileira e da idéia de identidade nacional principalmente no que se refere a questão sexual, produziu-se ao longo da história traços que se constituíram desde os primórdios da colonização, nas relações primárias quando chegaram os conquistadores iniciando um processo de miscigenação racial.
Percebe-se que a cultura brasileira desde os primórdios da colonização é marcada por uma identidade nacional que reforça a estigmatização do outro percebido como desvio, perverteram o sexo e todas as práticas sexuais foram postas sob o signo do discurso intelectual, explicada e analisadas, classificadas e condenadas. Em Freyre8, a aproximação entre as diferentes raças decorre de um forte impulso sexual. Assim, foram sexualidades exaltadas dos dois povos que primeiro se encontraram na América. Contrário da idéia de lubricidade maior comunicou-se ao brasileiro o africano, parece que foi precisamente este, dos três elementos que se juntaram para formar o Brasil, o mais fracamente sexual e o mais libidinoso, o português.
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8- Cf. Gilberto Freyre Casa Grande & Senzala Rio de Janeiro. Schmidt Editor, 1936 2 ed. p.60.
O ambiente em que começou a vida brasileira foi de quase intoxicação sexual. O europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os próprios padres da Companhia precisavam descer com cuidado, se não atolava o pé na carne. Muitos clérigos, dos outros, deixaram-se contaminar pela devassidão. As mulheres eram as primeiras a se entregarem aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses. Davam-se ao europeus por um pente ou um caco de espelho. (FREYRE, 1936 p. 60).
Sergio Buarque, não fundamenta a construção de caráter brasileiro no campo da sexualidade, a exemplo de Paulo Prado9 e Gilberto Freyre, enfatiza como tração marcante da brasilidade o predomínio do emocional e do instintivo sobre o racional. A mestiçagem brasileira é vista antes de tudo como uma resultante do problema sexual da raça dominante, e por centro o colono branco. Neste cenário de três raças, uma dominando e duas sendo dominadas estando em contato é o branco que dirige a seleção sexual no sentido do embranquecimento. Entretanto, a temática deixa claro que em grande parte os brasileiros se percebem através da sexualidade, mas também através da cor, além disso, existe a dificuldade das ciências sociais trabalhar essa questão, reconhecendo a centralidade que esta assume no discurso científico. Mas recentemente, as pressões dos movimentos feministas, dos homossexuais e do negro forçam a incorporação de novos olhares. A invasão do feminino na cultura: o instintivo, o sagrado, o sexual, o corpo passam a ser objeto de discussão, aceitos como importantes dimensões constitutivas das práticas sociais e das formas de conhecimento.
Nesse sentido, a questão do lugar central da sexualidade na construção da identidade nacional e na interpretação da história brasileira pode ser enunciada forçando uma releitura da historiografia. A figura da prostituta a margem da sociedade confere a história uma pagina importante. O crescimento da população e a falta de condições financeiras para sobreviver a prostituição constituem-se uma das mais antigas profissões do mundo. No Brasil, a questão da miscigenação, a junção das três para formação do povo brasileiro tem alcançado uma diversidade de culturas que faz do país um celeiro de saberes. A contribuição do povo nativo, do negro e do branco trouxe para essa nação uma forma diferente de existência. E assim, os trópicos foram vistos como lugar da promiscuidade, do português aventureiro que veio para cá e possuía um pensamento obcecado com a sexualidade.
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9- Cf. Prado, Paulo Retrato do Brasil. Ensaio sobre a Tristeza Brasileira. São Paulo, 1929, IIIa. Edição, 5. milherio.
No Brasil a tristeza sucedeu a intensa vida sexual do colono, desviada para as perversões eróticas, e de um fundo acentuadamente atávico. A hiperestesia sexual que vimos no correr deste ensaio ser traço peculiar ao desenvolvimento étnico de nossa terra evitou a segregação do elemento africano, como se deu nos Estados Unidos, dominados pelos preconceitos das antipatias raciais. Aqui a luxúria e o desleixo social aproximaram e reuniram as raças. (PRADO, Paulo, 1929, p.121-188).
Enfim, os homens da ciência não paravam de falar da sexualidade desde o século XIX, principalmente para condená-la. Dissecaram o corpo da meretriz, do cafetão, do homossexual, perverteram o sexo. Assim, todas as práticas sexuais foram postas sob o signo do discurso científico. De fato, a ciência tentou explicar, classificar e condenar. Na realidade, talvez a própria sexualidade tenha se transformado a primeira importância desde os primórdios dos séculos, e assim cada vez mais existe uma conexão entre sexualidade e subjetividade. A aproximação entre as diferentes raças desenvolveu impulsos sexuais, onde o europeu exaltado não soube controlar-se. A vantagem da miscigenação no Brasil correspondeu a uma desvantagem diante da sifilização. Juntas o Brasil sofreu um processo de civilização deformada, da má nutrição, das questões econômicas fragilizada. O desregramento dos europeus participa da construção e formação de um novo país.
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sábado, 27 de fevereiro de 2010
O ENSINO EM HISTÓRIA
AS MÍDIAS COMO RECURSOS METODOLÓGICOS
Ao refletir acerca dos novos recursos pedagógicos e das atitudes teórico-metodológicas da docência em História, precisamos pensar no significado das iconografias e na compreensão para a educação. Além disso, as imagens apresentadas nas obras devem despertar a curiosidade e levar o aluno a problematizar os conceitos e os registros históricos e a pensar sobre a ação dos sujeitos históricos. O que nem sempre acontece nos livros didáticos. É importante utilizar as fontes iconográficas no ensino de história uma vez que estas ocupam lugar relevante e têm sido objeto de destaque em suas mais variadas expressões: fotos, gravuras, pinturas, cartazes, desenhos, charges, gráficos, caricaturas, plantas e mapas.
Assim, o livro didático, tornou-se parte da cultura escolar e atualmente está inserido num contexto de grandes transformações conceituais do que significa conhecer, educar e saber. Na sociedade da informação, na qual se multiplicaram os instrumentos pedagógicos de aprendizagem escolar e novas linguagens surgem como forma pedagógica de conhecimento, o livro didático ainda continua sendo um dos instrumentos pedagógicos básicos de acesso ao saber da grande maioria das escolas. Podemos afirmar que não é possível falar em escola sem falar no livro didático. Muitos estudiosos e educadores ainda vêem o livro didático com grande preconceito, argumentação que é um material que serve como “muleta para o professor”, e que o bom professor não necessita de livro, pois deve conhecer profundamente todo o conteúdo discursivo da matéria que leciona.
Entretanto, a pesquisa histórica é um meio para se inserir os vários recursos por considerar um meio pedagógico que lida com diversos tipos de fontes e suportes variados, além da importância de suas especificidades do trabalho com esses materiais. O domínio de técnicas e linguagens aplicáveis a documentos de diferentes tipos (escritos, iconográficos, orais, musicais, etc,) requer um exercício constante e recorrente de pesquisa, não havendo uma fórmula única para lidar com eles.
De fato, as representações cartográficas e a iconografia são recursos importantes que contribuem para o conhecimento histórico. Lidar com fontes e linguagens diferenciadas, principalmente visuais requer certas habilidades, que podem ser desenvolvidas pelo exercício constante do olhar. Esse olhar não é apenas sensorial, mas parte de uma operação intelectual complexa, que envolve observar, identificar e compreender o significado das imagens.
A pesquisa seja no âmbito científico ou referente ao saber escolar é um mecanismo essencial para que o aluno possa apropriar-se de um olhar consciente para sua própria sociedade e para si mesmo.
Nesse sentido, o uso da iconografia no ensino de História seja ela uma fotografia ou a reprodução de uma obra de arte pintura, escultura, gravura, desenho ou caricatura, por exemplo, em suas diversas técnicas e suportes, são documentos históricos de igual valor ao da documentação manuscrita ou impressa.
Por outro lado, não se deve esquecer de que o recurso do filme é muito importante, no entanto, é preciso que o professor assista ao filme antecipadamente e analise a necessidade de um trabalho de contextualização do filme junto aos alunos. Isso é valido, inclusive, para os filmes indicados nos livros didáticos. Sabe-se que para a análise de um filme, em primeiro lugar, é conveniente considerar que o autor (diretor) fez um recorte da realidade, observou-se sob determinado ângulo e fez seleções adequadas. Essa atitude contribui para a análise do “lugar social” de quem produz uma obra.
Os materiais didáticos são expressões de representações e em cada um deles deve-se adotar um procedimento específico para analisá-los. A fotografia como linguagem documental representa uma dada realidade em um determinado momento. Além disso, vale ressaltar que o livro didático, não pode ser exposição fria e mecânica de conhecimentos adquiridos e transmitidos. Tendo por objetivo desvendar a experiência dos homens vivendo no tempo, em sociedade, e empreender a compreensão ativa da realidade social, a História quer ser um elemento de tomadas de consciência para as pessoas que a ela se chegam.
Por isso, sendo o conhecimento é provisório, o aluno terá condições de exercitar nos procedimentos próprios da História: que seja através da problematização das questões propostas, da delimitação do objeto de exame e do estado da questão, e da busca de informações. Assim, no âmbito dos procedimentos que lhe são próprios co-existe uma ampliação do conceito de fontes históricas, que podem ser trabalhadas pelos alunos como: documentos oficiais, textos de época e atuais, mapas, ilustrações, gravuras, imagens, poemas, letras de música, literatura, manifestos dentre outros.
Sendo assim, os recursos visuais iconográficos, gráficos, mapas, bem como outras representações visuais espalhadas também no livro didático e pelos espaços públicos e privados, constituem-se materiais valiosos de interpretação. Pode-se dizer que há um ponto que se deve considerar entre a documentação iconográfica como recurso pedagógico e a escrita ambas são fundamentalmente, representações da realidade, que, na maioria das vezes, não refletem diretamente o real, e assim devem ser encaradas. Em suma, são versões a respeito dos fatos e acontecimentos que servem de apoio ao processo de ensino–aprendizagem.
Em relação aos livros paradidáticos e didáticos, eles entram na sala de aula como objetos cuja intenção é apresentar um conhecimento já organizado e fechado. Por conseguinte, no que se refere às atitudes teórico-metodológicas da docência em História, ainda é possível dizer que para nós professores, a educação compreende dois pontos indissociáveis. De um lado, ela se faz pela transmissão do saber, que se constitui de conteúdos considerados socialmente relevantes, e chegam ao aluno “de fora para dentro”. De outro, é preciso extrai respostas dos alunos ativamente, instigá-lo a produzir o saber, propiciando situações das quais possam emergir sua própria interpretação dos conteúdos transmitidos. Enfim, tão importante quanto a transmissão de conhecimentos e experiências socialmente acumuladas são os estímulos promovidos em prol ao desenvolvimento das habilidades e competências que tornam o aluno apto a aprender e a conhecer.
Portanto, a proposta do ensino importa uma organização de conteúdos devidamente articulados e das estratégias determinadas para trabalhar os conteúdos satisfatoriamente, devendo deixar claro que os conhecimentos históricos existentes não se constituem algo pronto e acabado, mas que se compreendem um processo de mudanças e transformações e assim os conhecimentos são transmitidos e acompanhados pelos novos recursos pedagógicos existentes na educação e as diferentes atitudes teórico-metodológicas que os profissionais em História podem utilizar-se.
ENREDANDO NA CASA GRANDE: GILBERTO FREIRE
Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre
Ao publicar Casa-Grande e senzala em 1933, escreveria Gilberto Freyre: “Desde logo salientamos a doçura nas relações de senhores com escravos doméstico, talvez maior no Brasil do que em qualquer outra parte da América.” A frase expressa com clareza a visão que perpassa o livro e a obra em geral do sociólogo pernambucano sobre a escravidão brasileira: a amenidade dessa escravidão, sobretudo se comparada com a de outros países escravocratas. Essa visão daria margem à grande polêmica historiográfica sobre a caracterização do sistema escravista, até hoje não resolvida, pois condicionada às influências ideológicas e, conseqüentemente, ao enfoque teórico de cada autor. Justamente por isso, também são polêmicos os inúmeros aspectos abrangidos pelo tema e pela bibliografia, que é vasta, em função da importância assumida pela escravidão nos países onde foi implantada.
Mas o marco inaugural nas análises da cultura brasileira seria Casa Grande & Senzala, estampada em 1933. fecho de um período do pensamento brasileiro, e início de outro, é também, uma obra híbrida de tradição e renovação, em muitos pontos nostálgica de um Brasil que chegava ao fim, o de antes de 1930, visto por Gilberto Freyre de forma análoga.
Se do ponto de vista ideológico o autor ainda se filia a um país arcaico, desejando que o Brasil fosse um vasto engenho Japaranduba como o de seu primo, Pedro Paranhos. É inegável a inovação documental e temática trazida por sua primeira obra e mantida nas que se seguem. Freyre dignificou os anúncios de jornais, os diários e a correspondência familiar, os escritos de viajantes estrangeiros, os livros de receitas, as fotografias, as cantigas de roda e toda a tradição oral, multiplicando os suportes culturais a disposição do historiador.
Antes de toda a produção historiográfica contemporânea, centrada na questão das mentalidades e da cultura, mostrou-nos que os tempos da vida são objetos da história tanto quanto suas invariantes ou como o próprio ecúmero.
Freyre inovou também no método, onde, contudo s fragilidades e incongruências se fazem notar de forma mais evidente, como ressaltaram posteriormente. Assentou as bases de seu livro no critério da diferenciação entre raça e cultura: a primeira deixaria de ser categoria explicativa, papel atribuído a cultura. Se a exploração econômica foi violente e iníqua, a mestiçagem atuou como elemento atenuador, diminuindo as distâncias entre a casa senhorial e a senzala. Os males tradicionalmente imputados à mestiçagem, as doenças, a amoralidade, a apatia, a aversão ao trabalho passaram a ser atribuído ao sistema econômico. Ao contrário da monocultura, a mestiçagem mostrou-se benéfica no Brasil, e em casa Grande & Senzala viu-se pela primeira vez, abordada como fato social, como dado sociológico, em que a transmissão cultural, o momento da cultura, conta mais do que a transmissão genética.
A percepção da mestiçagem como um valor positivo permitiria a Freyre exaltar a superioridade dos portugueses como colonizadores: muito mais tolerantes plásticos e flexíveis que os demais povos, empreenderiam a colonização sob a égide da mobilidade, da miscibilidade e da aclimatabilidade. Teórico de um luso-tropicalismo e, em última instância, justificador do imperialismo português, Freyre ganharia grande prestígio em Portugal durante o regime ditatorial de Salazar.
A mestiçagem aliada a valorização da cultura, destaca a originalidade de práticas, crenças e costumes cotidianos tributários do entrecruzamento dos três grupos que constituíram o povo brasileiro:portugueses, africanos, indígenas. Sem utilizar a expressão ou problematizar o conceito, Freyre lançou, portanto, as bases da análise da mestiçagem cultural no Brasil, vista numa perspectiva predominantemente harmônica, posto que capaz de equilibrar os antagonismos entre culturas: a européia e a indígena; a européia e a africana; a africana e a indígena. Tal mestiçagem pôde ocorrer devido ao estabelecimento de certa reciprocidade cultural que, não raro, teve valor estratégico. Hábitos alimentares e culturais depois muito arraigados ao cotidiano luso-brasileiro foram gerados nesse ambiente propício à reciprocidade.
No que diz respeito ás contribuições culturais dos indígenas, Freyre chamou a atenção para a “couvade”; para a finidade com os animais; para o “mito do bicho” que designou como sobrevivência de tendências totêmicas e animistas presentes, entre outros exemplos, nas histórias horripilantes de bichos-papões que comem crianças para o complexo da mandioca, para o “mito do anjo menino”, ou seja, a valorização das crianças mortas, operada pelos jesuítas a fim de responder à terrível mortandade infantil entre os curumins.
Entretanto, a abordagem de Freyre valoriza, sobretudo o aporte cultural africano, destacando-lhe o caráter positivo mostrando que tudo quanto se lhe imputou como tração negativo dizia respeito antes à escravidão.
Parece as vezes influência da raça o que é influência pura e simples do escravo do sistema social da escravidão. Da capacidade imensa desse sistema para rebaixar moralmente senhores e escravos. Se índios e lusos eram tristonhos e melancólicos, o negro trouxe à mistura cultural uma extraordinária alegria e vitalidade. Influenciou as crenças, os costumes, a fala. A língua portuguesa, tão dura, dada a colocar os pronomes em ênclise, foi amolecida pelo negro, que lhe abrandou os SS e os RR, criando uma linguagem falada de crianças grandes que acabou por se generalizar.
A percepção da mestiçagem cultural é traço estruturante na obra de Freyre, cabe destacar outros assuntos que, mais acessórios, abrem, contudo possibilidades inestimáveis para a investigação. Assim, o relevo dado às relações sexuais e á religiosidade popular, considerados objetos dignos de análise e ricos em elementos explicativos da cultura brasileira, mesmo que a perspectiva então adotada não se sustente nos dias que correm.
Na realidade, a sexualidade surge como temática subordinada à questão mais ampla da mestiçagem, desdobrando-se em constatações discutíveis sobre o priapismo do africano ou a menor lubricidade do índio. De qualquer forma, ninguém, ante de Freyre, se detivera com tal vagar da questão, o que lhe confere precedência de mais de quarenta anos sobre interesse muito atual na história das mentalidades francesas ou na história cultural dos anglo-saxões.
O sadismo sexual, imperante nas relações entre senhores e escravos, permanecem antológicas: sadismo manifestado desde a infância, nos “meninos diabos” a se beliscarem e a darem bolos uns nos outros, e atingindo a plenitude na idade adulta: “a exagerada tendência para o sadismo característica do brasileiro, nascido e criado em casa-grande, principalmente em engenho”. E alguns insights, relegados á condição de nota de rodapé, têm suscitado bons estudos contemporâneos.
No tocante à religiosidade, indica a efetivação da vida religiosa e a sexualização dos santos como traços fundamentais da religiosidade luso-brasileira. De Casa Grande & Senzala caberia ressaltar que não se trata de estudo sistemático sobre o período colonial, mas de miscelânea iluminada sobre a história do Brasil até o final do século XIX. Apesar dessa inegável atemporalidade, o produto final revela aspectos até então nunca abordados da cultura na América portuguesa, razão por que influenciou decisivamente os estudos posteriores sobre esse período.
Análise epistemológica
Preocupado, como os de sua geração, com a questão da raça e atento à intensa miscigenação ocorrida no país, Freyre buscou explicar-lhe o significado, concebendo uma sociedade de tipo paternalista, onde as relações de caráter pessoal assumiam vital importância. A família patriarcal foi a base do sistema: resultante da transplantação e adaptação da família portuguesa ao ambiente colonial brasileiro, constituía uma vasta e hierárquica rede de parentesco, uma “ordem privada” impermeável a formas públicas de organização e controle.
Na sociedade assim estabelecida, predominavam a empatia entre as raças e a amenidade na relação senhor-escravo, características que explicariam a miscigenação e seriam peculiares no quadro geral do escravismo americano.
Em defesa de suas idéias, não hesitaria o autor de Casa Grande e senzala em idealizar as práticas escravistas e mesmo exagerar-lhes os resultados, ao dizer que o cativo talvez tenha sido “ o elemento melhor nutrido de nossa sociedade patriarcal”, que os castigos a ele infligidos tinham por finalidade educar e disciplinar, que as “numerosas” alforrias, em conjunto, teriam constituído “antecipações nada insignificantes ao Treze de Maio”.
Paradoxal, como ele próprio se qualificaria, Gilberto Freyre foi um “conservador-revolucionário”. Isto é, revolucionário quanto ao método, antropológico-cultural, quanto à originalidade dos fatos e à força de interpretação dos mesmos, provocou a mudança de curso das idéias pseudo-científicas sobre a inferioridade da raça negra, ao destacar de modo incisivo as raízes africanas e a importância destas na cultura brasileira. Mas foi conservador também. Seus argumentos para ressaltar a benignidade da escravidão revelam ter sido influenciado pelo pensamento conservador do século XIX, cuja substância seria “a apologia do passado e a conseqüente defesa do status quo”.
Algumas frases soam familiares quando se lê em Gilberto Freyre que a escravidão brasileira moderada e que os cativos seriam talvez mais felizes no Brasil patriarcal do que, quando na África negra, oprimidos por sobas e, sobretudo, maltratado nas próprias tribos: vítimas, por vezes, de tirânicas opressões tribais sob o aspecto de ritos compressores.
As idéias de Freyre reforçaram os mitos da brandura do senhor, da submissão do escravo. Ele generalizou para o Brasil e para toda a massa escrava uma interpretação calcada apenas no nordeste canavieiro e no escravo doméstico. Essa extrapolação é totalmente infundada no escravismo colonial, em que a maioria esmagadora dos escravos se destinou ao trabalho produtivo. Um escravismo patriarcal brasileiro, familialista e benevolente para com os escravos, não lidam, afinal de contas, senão com uns poucos fiapos pinçados do tecido sócio-histórico.
Ao generalizar sobre o espaço e tempo, Gilberto Freyre deixa de lado a dinâmica do processo histórico, ignora a historicidade da escravidão: “ a constante empatia com que trabalhou, não foi complementada por uma compreensão dos andamentos, desenvolvimentos, descontinuidades e antagonismos que produziram a s transformações e o eclipse da escravatura.
A miscigenação existiu em todos os sistemas escravistas e nem por isso alterou a situação do escravo ou desestabilizou a instituição. Portanto, está longe de desempenhar o papel que lhe foi atribuído por Freyre, cujas afirmações tiveram uma intencionalidade ideológica: a de justificar o passado escravista.